Uma noite mal dormida. A velocidade do avião e as ideias se perdendo no tempo ,ou se fortalendo. Cada instante imortalizado, farei um resgate do meu velho e novo mundo.
No pátido do aeroporto de Orly, vi a Eifel de relance, longe e negra. O dia cinza e abafado, a primeira imagem, as pichações nos túneis do metrô e a arquitetura clássica confortando minha literatura atmosférica, quase erótica - lembro de como eu gostava da luz do meu abajur num quarto velho, em Porto Alegre - uma questão de estar bem, em um lugar imaginário ou inspiração parisiense, seja como for, referências e ficção em conjunção é característica do meu jeito de viver. As meninas, entendi a moda ao revés...todas e muitas lindas e charmosas, é verdade. E pareciam que iam falar em português a qualquer momento. Paulistas, porto-alegrenses, vestidos pretos de algodão, blusas finas, camisa branca. Quando sai das galerias do metrô, uma grua e uma câmera acompanhava a minha explosão visual. Vi algo que para mim só poderia ser a Gare du L'est. Vi as cadeiras e as mesas de uma espécie de bar - procurei rapidamente no meu arquivo mental mas não encontrei o lugar - perguntei pra dois homens algo como: Ce la a Gare du train? Oui, ce la Gare du l'est, algo assim. Caminhei como adolescente apaixonado. Na esquina, uma rua grande que nao vi sinaleiras e quando um senhor se jogou na frente dos carros aproveitei meu peso e rolei até a esquina: quando vi o L'ecu du France, um café que Annais Nin tomou com Artaud, em 1934. Creio que eles se beijaram ali, não posso dar certeza. Me atrapalhei para comprar o billet. Mas consegui. Sebastian me emprestou o celular depois de eu ser expulso com gentileza, por um chato clássico executivo, da primeira classe do vagão. Mas isso foi engraçado. E telefonei para Mayra pois não queria me envergonhar em francês. Sebastião depois me ajudou, em Troyes, a comprar mais um billet, para Nogent. De Nogent liguei para Mayra.
Pulando muitos passos, conheci Daniel, do México. Um jovem de uma simplicidade e honestidade espiritual. Saimos fotografar por duas noites consecutivas e duas tardes quando ele descobriu que teria que ir embora, por motivos burocráticos. O Camac, onde estou, é uma casa, um centro de artes para residentes de arte, e literatura, música..., desenvolverem seus projetos. Como um albergue para artistas. Há studios incríveis com vista para o Sena, e um predio, lindo, de 400 d.C. Mayra volta amanhã da Suiça e contará sobre seu trabalho sobre Nietzsche. Ansio por novidades.
Amanhã tem vernissage e virá um ônibus lotado de Paris. Estou no lugar certo, mas como sempre um peixe fora d'água - não estou preocupado com isso porque já compreendo que cada um é um único no mundo e logicamente devo ficar feliz por me sentir assim - no deserto me sinto só, e no centro das artes tateando forma, procurando as portas da minha alma para encontrar o meu melhor ser. Domingo fui ao La Seine ler e escrever. Amanhã pesquisarei mais sobre as pessoas daqui. Uma vez que já estudei bastante as silhuetas e movimentos das nuvens, e a lua. As ideias vão se organizando, calmamente, como gosto de falar. Ainda não sei onde isso vai parar mas ando organizando minha ida para Paris, neste fim de semana, e no próximo, uma vez que terá concerto dos Pixies, e Nouvelle Vague assim por diante parece que estou num caminho musical. Por certo meu vídeo será todo inspirado e diluido na música, e nos sons das folhas do outono, no vinho de escorrega a garrafa e gira na taça - mas não posso me lembrar dos lábios molhados das telas e fotografias da memória, porém esse cheiro de hortelã que tem no ar desta vila conduz meus sonhos, flutuo toda noite como poesia instantes depois de ser feita. O iogurte de pêssego lembrou um que comi quando era muito pequeno. Ando sendo o suspiro, e não suspirando tanto, portanto a França é um canto especial para amar os meus próprios cantos inconscientes descobertos nas semelhanças com o presente. Ando gostando de caminhar e andar de bicicleta, para esquecer da textura da primavera no íntimo das pessoas especiais e brasileiras. Esses caminhos fazem bem para o homem. Voar para longe do ninho e assistir todo o movimento interno, e o mundo. O que é mundo, o que é mente, o que o mundo mental? Para onde que vou com tantas lembras, e quais me servem para a arte, para o futuro como ser? Então descobri que ando vivendo a primavera no meu ser, por isso que o outono está tão vibrante. Eu sou o carnaval em locais eruditos. Como um dadaísmo dentro de igrejas, e o Rock nas salas românticas. Sou um sambinha num centro budista. Música clássica, um piano, trompete de jazz quando todos querem ver uma novelinha. É bom, e complicado, porém a minha Paris vai ser sempre única. E a novidade, renovadora. Posso amar ainda mais.